A Família Juramidam, 15 de Março de 2010
Como prometido, o que se segue é a continuação da pesquisa sobre os companheiros do Mestre. Desta vez, sobre a história de Germano Guilherme. Mas, antes de começar, gostaria de agradecer a providencial ajuda de todos aqueles que participaram desse processo no envio de material. Agradeço também a todos aqueles que fizeram pesquisas anteriores sobre o Germano e que abaixo estão citados.
Portanto, é com prazer que eu apresento este texto que traz um pouco mais da vida daquele que foi o primeiro seguidor a tomar ayahuasca com o Mestre, isso ainda em 1928, quando ambos serviram na Guarda Territorial acreana e anos antes do primeiro trabalho da doutrina do Santo Daime, em 1930.
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De Germano, o que mais chama atenção em sua história talvez seja a amizade que cultivou com Mestre Irineu. E, de fato, foi por intermédio do encontro desses dois migrantes nordestinos, e Germano ter conhecido a “bebida do cipó” pelas mãos do Mestre, que a comunidade mais tarde testemunharia uma das amizades mais bonitas da doutrina; mencionada por todos os seguidores e que se estenderia até a sua morte, em 1964.
Como relatou dona Cecília, esposa de Germano Guilherme, era nas folgas da Guarda que muitas vezes eles se embrenhavam nas matas para tomarem ayahuasca. Daniel Serra, sobrinho do Mestre, ainda nos conta que em uma dessas incursões para tomar a bebida com as tribos fronteiriças - quando da disputa territorial entre o Peru e a Bolívia, presumivelmente no fim da década de 20 -, o Mestre lhe disse que ele e o Germano se depararam com uma patrulha boliviana. No imbróglio que se seguiu, o Mestre chegou a levar um tiro na mão. E talvez tenha sido por essa e por outras aventuras vividas que a forte parceria entre os dois amigos tenha se estendido até o fim.
Sobre o hinário de Germano Guilherme, poderíamos até dizer que ele é uma fiel narração do universo inacreditável de Raimundo Irineu Serra, o seu amado Mestre, com isso sendo aquele quem primeiro apresentou o seu imaginário verbal no plano terreno.
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Divino Pai Eterno
O seu mundo veio e formou
O seu mundo veio e formou
E habitou
E habitou
Com toda criação
Com toda criação
Com vosso amor
Deixou e levou
E tão distante ficou
E tão distante ficou
Olhando a sua criação
Olhando a sua criação
Com o vosso brilho do amor
Com o vosso brilho
Com o vosso brilho do amor
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Sobre sua origem e sua vida, a primeira pesquisa detalhada feita sobre Germano Guilherme vem do site www.hinarios.blogspot.com, que diz:
Germano Guilherme dos Santos nasceu no Piauí, em 28 de maio de 1902. Mudou-se com sua família para Rio Branco, Acre, onde ele viveu trabalhando nas colônias. Ao servir a Guarda Territorial, Germano conheceu Raimundo Irineu Serra, assim como também conheceu o Daime através desse amigo. Não só foi um dos primeiros seguidores do Mestre Irineu, acompanhando-o desde 1928, como foi o primeiro a cantar um hino na doutrina, mesmo que o primeiro hino tenha sido recebido pelo Mestre, duas décadas antes, nas florestas do Peru (1912). Por esse motivo, é tradição no Alto Santo cantar o seu hinário antes do “Cruzeiro”, hinário do Mestre.
Germano Guilherme era um homem de pele negra e dentes alvos, tendo grande carinho pelo Mestre. Eles se chamavam mutuamente de “maninho”. Nos pedidos com o Daime, pela cura de uma ferida na perna, viu que em uma encarnação anterior havia sido um cruel senhor de escravos, daí não haver cura para a mesma ferida, pois era “sentença”. Por causa disso ele não podia comer certos alimentos, mas quando estava na casa do “maninho” Germano comia de tudo e não sentia nada.
Em 1943 ele desposou uma filha de Antônio Gomes e Dona Maria de Nazaré, Cecília, vinte e seis anos mais jovem que ele e cujo filho de adolescência (que havia gerado com José das Neves) fôra adotado pelo Mestre e sua esposa, Dona Raimunda. A este filho foi dado o mesmo nome do tio materno que o Mestre deixara no Maranhão, Paulo d´Assunção Serra.
Germano Guilherme faleceu em 1964, deixando seu caderno de hinário, o “Sois Baliza”, como um dos alicerces da Doutrina que ajudou a fundar junto a seu amado Mestre.
Ainda falando do seu casamento com dona Cecília, a mesma nos conta em seu depoimento:
“Assim era o padrinho Irineu. Para mim, ele era tudo, meu pai, meu Mestre, meu padrinho. Ele me criou, morei muitos anos na casa dele (...). Depois, me casei com o Germano, com a orientação dele. Eu tinha dezesseis anos e o Germano quarenta e dois. Mas o padrinho Irineu viu que aquele casamento ia ser bom para nós. Então, nós casamos (...), sempre seguindo a orientação dele.” [As Religiões da Ayahuasca - Sandra Lucia Goulart]
De todos os relatos colhidos, a imagem que se tem de Germano Guilherme é a de uma pessoa zelosa, companheira e muito firme em seu trabalho. Era conhecido pela sua decisão e firmeza nas atitudes e palavras. Segundo correspondência com Teófilo Maia,
Outrossim, um “causo” que se conta do Germano é o de quando ele estava em casa e um jovem passou e pediu a ele duas laranjas de uma laranjeira carregada, o que ele prontamente consentiu. Só que o jovem tirou várias laranjas e as colocou em um saco. Quando se retirava agradecendo, Germano o chamou de volta e disse: "Você me pediu duas, portanto derrame o saco e tire as duas que me pediu.” Assim foi feito e o rapaz foi saindo meio encabulado. Aí ele o chamou novamente e o rapaz, já com medo, ficou parado. Então, Germano falou: “Agora junte o resto e leve que eu estou lhe dando, e aprenda a pedir para poder receber.” Sendo que desta e outras lhe sobrou o apelido de “buraco”. Este causo foi contado pelo Sr. Paulo Serra, que vivia com ele e a mãe, dona Cecília, e foi testemunha ocular.
Em depoimento ao site A Família Juramidam, seu Daniel Arcelino Serra, sobrinho do Mestre, narra:
“Seu Germano Guilherme foi uma das primeiras pessoas que ajudou meu tio na doutrina. Foi a segunda pessoa a receber hinos. Trabalhei muito com ele, inclusive na casa dele. Vivia bem, era uma pessoa muito caprichosa, casado com dona Cecília Gomes, irmã de dona Peregrina (viúva do Mestre Irineu). Tinha uma personalidade muito forte, era bastante respeitado pelos irmãos, pois gostava das coisas muito certinhas.
Era muito rigoroso com as pessoas que trabalhavam com ele, tinha que ser do jeito que ele queria. Até para cantar seu hinário tinha que ter respeito, não gostava quando as pessoas cantavam fora dos trabalhos.”
Sobre Germano e o salão, ele era reconhecido por ser um excelente cantor era um maestro do maracá, fazendo questão de marcar pessoalmente o compasso e a condução de seu hinário. E Teófilo Maia completa que cantar seus hinos era um acontecimento na comunidade.
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No coração trago a firmeza
E no Divino nas alturas
Esta é a casa da verdade
É um primor é um primor
É um primor de formosura
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Um caso interessante a respeito de Germano é que o Mestre teria dito a dona Percília - gerente geral dos hinários e quem anotava todos os hinos recebidos em um caderninho - que ela podia corrigir os hinos de todos, mas que nos do seu Germano não se trocasse uma vírgula. O fato é que o Mestre muitas vezes procurava a dona Percília para revisar seus hinos, o que ela nunca fez e sempre se recusou a fazer. Ele mesmo ia tomar Daime e corrigir o que tinha que ser corrigido com a Rainha.
Daniel Arcelino Serra ainda completa,
“O hinário dele era cantado no dia de Nossa Senhora da Conceição, porque ele era devoto de Nossa Senhora da Conceição. Depois do hinário dele cantava os Hinos Novos (Cruzeiro). Foi o Mestre que colocou na pauta o hinário dele neste dia. Fisicamente ele era mediano, com 1,65, nem muito forte nem muito magro.
Vivia de cadeira de roda [no fim da vida], até seu hinário ele cantava sentado, devido à enfermidade na perna, que ele dizia que era sentença de outras encarnações. Dizia que sofria com regeneração, pois estava pagando uma conta de outra vida.
A relação dele com o Mestre era muito boa. Estavam sempre juntos. E o Mestre tinha todo o respeito por ele.”
Em longa correspondência com Teófilo Maia, este pesquisando a vida dos Companheiros no Alto Santo, eles nos conta que:
O Germano nasceu em São João do Piauí, no Estado do Piauí. Viveu toda sua infância na caatinga e sempre foi muito festeiro. Gostava muito da dança do Boi e da Quadrilha, chegando a ser “Amo de Boi”, e como tal viajava toda cercania da Fazenda Nacional, que inclui a região de Oeiras, Simplício Mendes, Colônia do Piauí, Santa Rita de Cássia, São João do Piauí, Canto do Buriti, Itaueira, Floriano São Raimundo Nonato, Curimatá e adjacências.
A Dança do Boi é uma dança folclórica genuína dos sertões piauienses – sendo diferente do Reizado cearense e do Bumba meu Boi maranhense - e conta a história do fazendeiro que tinha no seu boi de estimação o orgulho da fazenda. Mas que Catirina, a mulher do "Nêgo Chico", vaqueiro (capataz), encontrando-se grávida desejou comer a língua do boi. Daí que o vaqueiro mata o boi e tira apenas a língua, para encobrir qualquer vestígio de que tinha sido ele. Mas o amo fazendeiro descobre o boi morto, chama o sargento da milícia e passa a caçar o Nêgo Chico, que, para não ser morto, convoca um Pajé catimbozeiro para fazer o boi tornar a viver. Essa história é contada com cânticos e bailados, com os “boieiros” vestidos com roupas coloridas e cheios de “alegrias”, (as mesmas fitas que as mulheres usam hoje na farda Branca). Como na Dança do Boi, quem comanda é o amo, e como instrumento único de comando tem o maracá, que sempre se sobressai aos tambores e a cuíca. E Germano, como Amo de Boi, era um especialista nesse instrumento.
Ainda na juventude ele viajou para a Amazônia, especificamente o Acre, aonde veio a cortar seringa e trabalhar na Guarda Territorial, esta na qual conheceu o Mestre e com ele conheceu a “bebida do cipó”. Isso lá pelas terras de Brasiléia, após ter dado baixa, ao mesmo tempo em que o Mestre veio para a Volta do Empresa (Rio Branco). Lá eles se reencontraram e o "maninho" passou a ser um dos primeiros seguidores do Mestre.
Germano foi o primeiro a cantar um hino na Doutrina. Teve uma primeira companheira, mas que não o acompanhou, e em Rio Branco casou-se com dona Cecília, a “Vó Preta”. Não deixou prole, nem com a primeira nem com a última, mas o Sr. Paulo Serra, filho de José das Neves, que era padeiro, foi viver com Germano quando este se casou com sua mãe.
Germano sofria de eczema na perna, o qual dizia ser sentença e com isso sofria resignadamente. Mas não viveu em cadeiras de rodas, pois na época isso ainda não existia. Ele tinha seu tamboretinho que o acompanhava para o roçado, dentro de casa e nos trabalhos no centro.
Com isso não podia fazer muito esforço, mas mesmo assim limpava seu cafezal com terçado (facão), sentado no seu tamborete. Tinha também seu roçado e sua pequena horta, tudo cultivado junto com Vó Preta, que era quem ia para feira e resolvia todos os assuntos domésticos como compras e vendas, pois Germano somente saia de casa para ir ao Centro. Mas nos serviços no roçado era muito sistemático e todos tinham que fazer do jeito dele.
Dos companheiros ele foi o menos favorecido materialmente, sendo respeitado pela irmandade pelo seu modo sério de tratar as coisas e cumprir seus compromissos. Afinal, ele era o “buraco”, o que quer dizer destemido. Também não morava no Alto Santo, sempre morou na sua colônia com Vó Preta e Paulo Serra.
Essas informações foram obtidas com visitas ao Sr. José Gomes, filho de Antonio Gomes e irmão de Vó Preta, e este foi muito próximo tanto do Germano como da Maria Damião, pois era que amansava os bois brabos, para carga e carroça, e trabalhava ajudando o Germano e para a Maria Damião e fazendeiros da região.
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Germano Guilherme foi o último dos quatro Companheiros a fazer a passagem, com 62 anos, em 1964. Nesse ano, vários dos últimos seguidores que conheceram o Mestre em vida já tinham chegado à missão, a exemplo do seu Loredo Ferreira, João Pedro, Francisco Granjeiro, a família Carioca, Daniel Serra, Wilson Carneiro, Tetéo, Luiz Mendes e muitos outros. Seu velório foi realizado em sua casa, próximo à Vila Ivonete, depois sendo reverenciado pela irmandade no Alto Santo, onde aconteceu seu sepultamento e onde hoje seu corpo descansa, ao lado de outros pioneiros da doutrina e às margens da floresta que tantas vezes visitou com seu amado Mestre.
Dessa forma, aqui fica feita essa homenagem a Germano Guilherme dos Santos, o “Maninho”, companheiro e fiel amigo do Mestre e que hoje é lembrado por nós quando cantamos seu hinário, “Vós Sois Baliza”, um dos cinco que foram oficializados por Irineu Serra como sendo a base doutrinária do Santo Daime.
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Eu recebi eu recebi
Eu recebi com alegria
De quem eu recebi
Foi da sempre virgem Maria
Tu não deve dar conselho
A quem não quer escutar
Dou-te esta instrução
Deixa ficar como está
Treme a terra treme a terra
Treme a terra e geme o mar
Tudo que existe nela
Tem tudo que balançar

Nota: os hinos aqui apresentados são de recepção de Germano Guilherme, sendo que o segundo é apenas um trecho do hino "Do Sol Vos Nasce a Luz". Os outros são "Divino Pai Eterno" e "Eu Recebi", respectivamente abrindo e fechando seu hinário.